Thursday, August 2, 2012

O problema da perfeicao


Esse é um artigo antigao, de uns 8 anos atrás, mas ainda gosto dele, apesar de que editaria algumas coisas agora. Resgate do finado ex-my-blog

Temos uma sede de perfeicao. Apesar de ainda haver em nós muito da perfeicao original com que fomos criados rescendendo pelo ambiente, muita, muita coisa se perdeu e nunca se recuperou. Vivemos procurando ser perfeitos, legais, melhores do que os outros, cheios de preconceito e de máscaras. Ou entao vivemos arrasados por nao sermos o máximo, e procuramos referenciais para nós em outros, pessoas que sejam tao legais, tao perfeitas que jamais errem, decepcionem, calem ou falem a coisa certa, vistam-se de modo certo, metam o dedo no nariz só no banheiro e jamais coloquem os cotovelos em cima da mesa.
A sede de perfeicao nao é o problema em si. Afinal, quem veio de Deus, nao se satisfaz com menos do que a perfeicao, a própria pessoa dEle, porque é nessa pessoa que somos completos, cheios, llenos, full, absolutos. E fomos feitos para Ele, entao como poderíamos querer menos? Impossível! Acontece que um dia houve o grande racha, o rasgo mais delicado da história, a hora mais negra, a dor mais intensa, onde a navalha se enfiou fundo na carne, cortando o relacionamento com o homem e Deus: pecado. E daí a separacao nos deixou órfaos da Fonte, da Origem, da Consumacao, da Perfeicao, perdidos num universo sem Ele, desorientados, jogados numa vicinal sem mapa, neném sem chupeta, Romeu sem Julieta, dor sem cura, doenca sem vacina, mal sem remédio. Drástico e dramático assim.
E desde entao estamos nessa busca desenfreada por perfeicao, por algo puro, uma centelha na escuridao que se tornou nossa existencia, espíritos mortos vagando pelo mundo. E essa busca de tudo de bom nos cantores, reis, filhos, filósofos, maes, pais, romances, animais, qualquer cois que preencha essa frustracao, que traga de volta a emocao perdida, a plenitude da qual temos saudades, a glória que fomos feitos para experimentar. E buscamos e buscamos, por séculos e milenios temos buscado. E aí vao líderes, celebridades, vultos, ícones, ídolos, empreendimentos, utopias, revolucoes, sempre buscando o Melhor a que aspiramos. No nível pessoal projetamos nos outros o que queremos, e sofremos continuamente a amarga decepcao de descobrir que as pessoas mais maravilhosas do mundo sao tao iguais a nós, nos machucando e decepcionando, errando e se frustrando, tendo depressao, anorexia e gastrite.
Sim, mas e aí? E aí que isso tudo pode ser resolvido pela reconciliacao promovida pela cruz de Cristo. Ela nos restaura a Deus, ao referencial supremo, ao único que é e nEle todas as coisas se bastam. NEle satisfazemos nossa fome de glória, de perfeicao. Nele tudo se encaixa, tudo faz sentido, tudo adquire significado( nem sempre na hora que a gente quer, mas conhecendo-O, sabemos que Ele é soberano sobre todas situacoes e confiamos). Ele é o colo nas desilusoes, o ombro amigo nas dores, o riso nas criancas, o azul no céu. Nao precisamos tentar ser o que nao somos, pra suprir as expectativas das pessoas porque nunca seremos. Nem temos como ser. Porque o que elas buscam e precisam é de algo maior, do próprio Deus. Também não precisamos sobrecarregar as pessoas ao nosso redor, pais, irmaos, maridos, mulheres, líderes, hierarquias ou personalidades com a nossa projecao irreal. Lógico que os bons exemplos podem e devem ser apreciados, elogiados e seguidos e os ruins corrigidos, mas isso com a consciencia de que é preciso ir além, continuar, manter, perseverar, com os olhos no único referencial necessário e possível: Nele.
E o resultado desse andar é a parte mais legal; sobra humildade, porque entendemos que estamos todos no mesmo barco, iguais uns aos outros, errando, se espatifando, acertando às vezes na mosca, às vezes na média. Aprendemos a compaixao pelos que caem, sofrem e erram porque neste caminho nós também já estivemos. Chega a graca que é a única coisa suficiente pra manter a nossa sanidade mental no meio dessa loucura, dessa tensao entre o céu e a terra, entre a glória e o pó, entre o erro e o perdao. Nasce o amor que é a aceitacao incondicional mas não conformista, a ligacao íntima, afetuosa, inteira, o dar de si mesmo, e espor-se, o morrer pelo outro. E aos poucos vamos conhecendo a Deus, e amando-O e vivendo-O, e tudo o mais, de glória em glória, até vermos face a face a não por espelho. Negar isso é ter o mesmo sentimento de Satanás, que se achou, se olhou, se bastou, se exaltou, se rebelou e se ferrou. Ele buscou em si mesmo a fonte da perfeicao, e não entendeu que era como a lua, que não brilha sem o sol. Todas as auto-imagens distorcidas, as auto-suficiencias, as máscaras, as soberbas, os fingimentos, as inadequacoes, as super e as inferioridades, vem daí.
Conclusao? Vamos nos permitir ser humanos! Vamos deixar de tentar ser o que não somos, nem nunca poderemos ser. Vamos deixar de cobrar das pessoas o que nem nós mesmos conseguimos. Vamos tirar as máscaras, ser transparentes, deixar nossos cantos escuros serem iluminados, nosso Dr. Jekyll vir a tona. Não pra que ele domine sobre nós, mas pra que ele seja exposto e mudado. Não pra justificar os erros, mas pra assumi-los e ter forca pra mudar, pra não ter que carregar sozinho o piano, pra receber ajuda. Vamos nos deixar abencoar por outros, pelos que tem menos do que nós. Vamos ter a coragem de ser frágeis, vulneráveis. Vamos chorar nos filmes romanticos, gritar de espanto, admitir quando não sabemos, ficar arrasados quando fizermos de novo, perdoar. Vamos ser completamente humanos, essa “estranha dualidade de pó e glória”, até que nossa perfeicao ilimitada, fim de toda busca, anseio de todo íntimo, o Senhor Jesus, venha e nos restaure à sua glória, à sua imagem e semelhanca. Ele refletido em nós. A volta da perfeicao. Consumacao. Plenitude.

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